O câncer de pâncreas é uma das neoplasias mais desafiadoras da oncologia digestiva. Em muitos casos, o tumor evolui de forma silenciosa nos estágios iniciais, o que faz com que o diagnóstico ocorra apenas quando a doença já está em fase mais avançada.
Apesar desse cenário, o tratamento do câncer pancreático evoluiu significativamente nas últimas décadas. A cirurgia continua sendo a principal estratégia potencialmente curativa, especialmente quando o tumor é diagnosticado em fases nas quais ainda é possível realizar a retirada completa da lesão.
Neste artigo, o Dr. Marcelo Souto, especialista em cirurgia do aparelho digestivo, explica os sinais que podem indicar doença avançada, como é feito o diagnóstico e em quais situações o tratamento cirúrgico ainda pode ser considerado.
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Índice de tópicos
- O que é câncer de pâncreas
- Função do pâncreas no organismo
- Principais fatores de risco para câncer pancreático
- Sintomas iniciais e sinais de alerta
- Quando o câncer de pâncreas indica doença avançada
- Como é feito o diagnóstico
- Tumores ressecáveis, borderline e irressecáveis
- A cirurgia de Whipple
- Tratamentos combinados: quimioterapia e cirurgia
- Prognóstico e importância da avaliação especializada
- Conclusão
O que é câncer de pâncreas
O câncer de pâncreas é um tumor maligno que se desenvolve nas células do pâncreas, órgão localizado na parte posterior do abdome, atrás do estômago.
O tipo mais comum é o adenocarcinoma ductal pancreático, responsável pela grande maioria dos casos. Esse tumor se origina nas células que revestem os ductos pancreáticos, estruturas responsáveis por transportar enzimas digestivas.
Embora seja menos frequente que outros cânceres digestivos, o câncer de pâncreas é considerado uma doença de grande impacto devido à sua evolução frequentemente silenciosa e ao diagnóstico tardio em muitos pacientes.
Função do pâncreas no organismo
O pâncreas desempenha duas funções fundamentais no organismo:
Função digestiva
O órgão produz enzimas digestivas que são liberadas no intestino e ajudam na digestão de proteínas, gorduras e carboidratos.
Função hormonal
O pâncreas também produz hormônios importantes, como:
- insulina, redução da glicose promovendo seu armazenamento
- glucagon, que ajuda a regular os níveis de açúcar no organismo, aumenta o nível de glicose no sangue frente à jejum, infecções, inflamações
Além de hormônios como somatostatina, PP, entre outros, em que alterações nesse órgão podem afetar tanto a digestão quanto o metabolismo.
Principais fatores de risco para câncer pancreático
Diversos fatores podem aumentar o risco de desenvolvimento do câncer de pâncreas.
Entre os principais estão:
- tabagismo
- obesidade
- pancreatite crônica
- diabetes de longa duração
- histórico familiar da doença
- idade acima de 60 anos
- álcool
Em alguns casos, mutações genéticas hereditárias também podem estar associadas ao aumento do risco.
Sintomas iniciais e sinais de alerta
Uma das características do câncer de pâncreas é que, nos estágios iniciais, a doença pode causar poucos sintomas.
Quando presentes, os sinais iniciais podem incluir:
- dor abdominal vaga
- desconforto na parte superior do abdome
- perda de peso inexplicada
- falta de apetite
- cansaço persistente
Como esses sintomas são inespecíficos, muitas vezes não despertam suspeita imediata.
Quando o câncer de pâncreas indica doença avançada
À medida que o tumor cresce, outros sinais podem surgir e indicar doença mais avançada.
Entre eles:
Icterícia
A icterícia é caracterizada pelo amarelamento da pele e dos olhos. Isso ocorre quando o tumor comprime o ducto biliar e impede o fluxo normal da bile.
Dor abdominal intensa
A dor pode irradiar para as costas e costuma se tornar mais persistente com a progressão da doença.
Perda de peso significativa
O emagrecimento involuntário pode ser marcado em muitos pacientes.
Alterações digestivas
Alguns pacientes podem apresentar dificuldade na digestão de alimentos gordurosos ou fezes mais claras.
Esses sintomas geralmente indicam que o tumor já apresenta maior extensão local.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do câncer de pâncreas envolve diferentes exames de imagem e laboratoriais.
Entre os principais estão:
- tomografia computadorizada de abdome
- ressonância magnética
- ecoendoscopia
- biópsia do tumor
A tomografia é geralmente o exame mais utilizado para avaliar a extensão da doença e verificar se existe comprometimento de vasos sanguíneos ou presença de metástases.
Essas informações são fundamentais para definir a possibilidade de tratamento cirúrgico.
Tumores ressecáveis, borderline e irressecáveis
A possibilidade de cirurgia depende principalmente da relação do tumor com estruturas vasculares importantes.
Os tumores costumam ser classificados em três grupos principais.
Tumores ressecáveis
São aqueles que podem ser removidos completamente por cirurgia, sem invasão significativa de vasos sanguíneos importantes.
Nesses casos, a cirurgia é considerada a principal estratégia terapêutica.
Tumores borderline
São tumores que apresentam contato limitado com vasos importantes. Em muitos casos, pode ser indicada quimioterapia antes da cirurgia para reduzir o tumor.
Tumores irressecáveis
Quando existe invasão extensa de vasos ou metástases à distância, a cirurgia geralmente não é indicada como tratamento inicial.
Nessas situações, o tratamento costuma envolver terapias sistêmicas.
A cirurgia de Whipple
A cirurgia mais frequentemente realizada para tumores localizados na cabeça do pâncreas é chamada de duodenopancreatectomia, mais conhecida como cirurgia de Whipple.
Esse procedimento envolve a retirada de:
- parte do pâncreas
- duodeno
- vesícula biliar
- parte do ducto biliar
- em alguns casos, parte do estômago. Envolve também a retirada do estômago na DPT; se preserva o estômago até o piloro, é chamada Traverso-Longmire.
Após a retirada dessas estruturas, o sistema digestivo é reconstruído por meio de diversas anastomoses (conexões cirúrgicas).
Apesar de ser uma cirurgia complexa, quando realizada em centros especializados apresenta bons resultados e pode oferecer possibilidade de cura.
Tratamentos combinados: quimioterapia e cirurgia
Nos últimos anos, o tratamento do câncer de pâncreas passou a utilizar com maior frequência abordagens combinadas.
A quimioterapia pode ser utilizada:
Antes da cirurgia (neoadjuvante)
Com o objetivo de:
- reduzir o tumor
- tratar micrometástases
- avaliar o comportamento da doença
Após a cirurgia (adjuvante)
Para reduzir o risco de recidiva.
Essa estratégia integrada tem permitido ampliar as possibilidades terapêuticas e melhorar os resultados do tratamento.
Prognóstico e importância da avaliação especializada
O prognóstico do câncer de pâncreas depende de vários fatores, incluindo:
- estágio da doença
- possibilidade de ressecção cirúrgica
- resposta ao tratamento sistêmico
- condições clínicas do paciente
A avaliação por equipes especializadas em cirurgia do aparelho digestivo é fundamental para determinar a melhor estratégia terapêutica.
Centros com experiência em cirurgia pancreática costumam apresentar melhores resultados, especialmente em procedimentos complexos como a cirurgia de Whipple.
Conclusão
O câncer de pâncreas é uma doença complexa, que frequentemente apresenta diagnóstico tardio. Ainda assim, em muitos casos o tratamento cirúrgico pode ser uma opção importante, especialmente quando o tumor é identificado em estágios potencialmente ressecáveis.
A evolução das técnicas cirúrgicas e dos tratamentos oncológicos tem ampliado as possibilidades terapêuticas para esses pacientes.
O Dr. Marcelo Souto atua na avaliação e tratamento das doenças do aparelho digestivo, oferecendo acompanhamento especializado para pacientes com tumores pancreáticos e outras condições complexas do sistema digestivo.


